terça-feira, 11 de agosto de 2015

As lições econômicas de Game of Thrones (Matthew McCaffrey & Carmen Elena Dorobat)

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Tradução: Marcelo Werlang de Assis
Publicado originalmente aqui. 
 
A popular série Game of Thrones, da HBO, é baseada na intricada coleção de livros de fantasia de George R. R. Martin, As Crônicas de Gelo e Fogo, a qual tem se tornado uma inspiração para análises e comentários de todos os matizes. E, enquanto os seus personagens complexos e moralmente ambíguos têm atraído muitos analistas e comentaristas políticos e literários, há também importantes lições econômicas a serem aprendidas dos livros.
A trama de Martin se refere a uma variedade de assuntos econômicos — desde as implicações do fato de não existir sequer um sistema econômico até os problemas da moeda e das finanças estatais. Em outro artigo (e numa entrevista), nós discutimos tais problemas e explicamos como os governantes do continente de Westeros recorrem aos métodos tradicionais de financiamento estatal: tributação, endividamento e inflação.
 Neste artigo, discorreremos sobre algumas das outras implicações econômicas da série, especialmente acerca das ideias a respeito da ordem social e acerca do papel que a cooperação pacífica, o comércio e a moeda desempenham na organização da sociedade.
 
O Meio Político e o Meio Econômico
 
Franz Oppenheimer famosamente realizou a distinção entre o “meio político” e o “meio econômico” de organização social. O primeiro implica a coerciva redistribuição de riqueza; a riqueza, entretanto, é criada apenas por aqueles que estão envolvidos no meio econômico de organização, o qual se baseia na produção pacífica, no comércio e na troca. (1926, pp. 24–27.)
            Essa distinção aparece de forma muito clara em As Crônicas de Gelo e Fogo. Por exemplo, povos tão diferentes como os Dothraki e os Homens de Ferro são cabais e resolutos exemplos do meio político. Ambas as sociedades produzem pouco ou nada por si mesmas; elas, pelo contrário, prosperam por meio da violência e da pilhagem. Encontra-se uma perfeita ilustração disso no “código” da Casa Greyjoy, a qual proclama: “Nós Não Semeamos.” A insinuação, por óbvio, é que os homens das Ilhas de Ferro apenas ceifam os frutos daquilo que os outros semearam. [1] O lema da Casa Greyjoy é uma hábil, adequada e sagaz descrição do estado, o qual é, fundamentalmente, uma instituição parasitária que depende, para a sua sobrevivência, do saque de uma população produtiva.
Mas a distinção entre o meio político e o meio econômico aparece também em situações mais sutis. Até mesmo nas partes relativamente pacíficas do reino, nas quais a ordem civil é mantida e a exploração é menos óbvia, vê-se claramente que os interesses dos governantes e dos governados são diferentes, da mesma forma como são diversos os meios de se obter a prosperidade. Martin atinge o cerne da questão numa conversa entre Daenerys Targaryen e o seu parceiro, Ser Jorah Mormont. Daenerys acredita que o reino que a sua família uma vez governou se erguerá em defesa da pretensão do seu irmão ao trono. Ela observa: “O povo está esperando por ele. Magíster Illyrio diz que as pessoas comuns estão confeccionando bandeiras de dragões e rezando para que Viserys retorne através do Mar Estreito para libertá-las.” A resposta que ela recebe é simples, mas esclarecedora:
 
“As pessoas comuns rezam por chuva, por crianças saudáveis e por um verão que nunca termine”, disse-lhe Ser Jorah. “Não lhes interessa a guerra dos tronos que os grandes lordes jogam, contanto que sejam deixadas em paz.” Ele encolheu os ombros. “Elas nunca são.”
 
É facilmente perceptível, em As Crônicas de Gelo e Fogo, a ideia de que o comportamento político traduz-se essencialmente em pilhagem criminosa. Davos Seaworth, em outro trecho, reflete sobre a trajetória do marinheiro Salladhor Saan, seu amigo e camarada, que é “um contrabandista... bem como um comerciante, um banqueiro, um pirata notório e o autoproclamado Príncipe do Mar Estreito”. Davos, então, conclui para si mesmo: “Quando um pirata enriquece o suficiente, fazem-no um príncipe. [2]
 
Moeda e Sociedade
 
Além de discutir a essência do governo, a série contém outras ideias econômicas também. Um proeminente exemplo é o forte entendimento da narrativa sobre o papel que a moeda desempenha na sociedade. Em particular, o desdobramento da história fornece fotografias de diferentes estágios de desenvolvimento econômico; e tais estágios estão intrinsecamente ligados às diversas percepções culturais sobre atividade econômica e moeda.
Os horselords Dothraki — o descentralizado grupo de tribos guerreiras que vagueiam pelo continente oriental — são óbvios exemplos. Os Dothraki de maneira alguma realizam comércio, e o máximo de interação social pacífica a que chegam é um vago sistema de troca de presentes. Eles, portanto, não utilizam moeda — e a sua civilização reflete profundamente esse fato.
Sem um sistema de troca indireta, eles são incapazes de desenvolver bens de capital, contando, em vez disso, com as receitas redistributivas das pilhagens para sobreviverem. Eles são amplamente nômades, faltando-lhes a capacidade (ou o desejo) de produzir e comerciar. Com efeito, as únicas estruturas permanentes da cidade de Vaes Dothrak são aquelas construídas por escravos estrangeiros, com a utilização de materiais saqueados. A inexistência de uma sociedade complexa pode ser atribuída à recusa deles a se engajarem em atividades econômicas e, em decorrência disso, a adotarem um meio de troca.
Já que a moeda torna possíveis as decisões empreendedoriais necessárias para o desenvolvimento da economia, o cálculo econômico, portanto, é tão impossível para os Dothraki quanto para uma sociedade socialista. [3]
Uma segunda fase de desenvolvimento econômico é representada pelos “selvagens vulgares” (wildlings) que vivem além do Muro, ao norte dos Sete Reinos. Eles não possuem uma autoridade política centralizada e orgulhosamente referem-se a si mesmos como o “povo livre” (free folk). [4] Embora não sejam tão economicamente desenvolvidos quanto os Sete Reinos, os wildlings são mais avançados do que os Dothraki.
A atividade econômica existe na forma de relações de escambo entre alguns grupos relativamente pacíficos. Contudo, devido à constante guerra com os povos situados ao sul do Muro, os free folk não podem se engajar em comércio prolongado, planejamento de longo prazo ou cooperação social. Forçosamente excluídos da sociedade, eles ficam restritos a levar uma existência num ambiente pobre em recursos, alcançando não mais do que o mínimo de desenvolvimento econômico.
Em terceiro lugar, os Homens de Ferro, assim como os Greyjoy, são, no tocante à moeda, um caso mais intermediário. A sua obsessão com a conquista os conduz a minimizarem o comércio e o uso do dinheiro — o que eles ridicularizam como “pagar o preço do ouro”. Sob o ponto de vista da sua cultura, os homens, pelo contrário, devem pagar o “preço do ferro” por qualquer vestimenta que vistam ou qualquer luxo que desfrutem; em outras palavras, qualquer coisa de valor que alguém possuir deve ser arrebatada do corpo de um inimigo assassinado.
Apesar de terem sido parcialmente integrados, à força, à vida econômica e social dos Sete Reinos, os Homens de Ferro fazem um esforço consciente para manterem o seu antigo modo de vida baseado na expropriação. Em virtude disso, eles restringem o seu uso do dinheiro a uma esfera relativamente pequena.
Um nível maior de sofisticação econômica pode ser encontrado nos Sete Reinos de Westeros. A política dos Sete Reinos é similar àquela de uma sociedade feudal, na qual “os homens se tornavam ricos através da guerra e da conquista e por meio da liberalidade do governante soberano. Os homens se tornavam pobres quando eram derrotados em batalha ou quando não mais se encontravam nas boas graças do monarca.” (Mises, 2006, p. 158.)
Tenha você lido ou não os livros, a história é familiar. Deparando-se com a dificuldade de financiar uma guerra aparentemente sem fim, o Mestre da Moeda (uma posição equivalente a Ministro das Finanças) concebe novos tributos; mas estes duram apenas enquanto a população for capaz de pagá-los. Os governantes estão dolorosamente conscientes de que “metade dos senhores do reino não poderia tolerar uma tributação tirânica e fugiria num piscar de olhos para o usurpador mais próximo caso isso lhes salvasse uma moeda de cobre”.
O endividamento (empréstimos) também serve à coroa; todavia, embora isso dê a ilusão de prover um almoço grátis, trata-se de um meio custoso, que não oferece soluções duradouras. Num momento da história, Cersei Lannister sonha fundar o seu próprio banco, para que ele lhe seja uma fonte permanente de fundos. O último recurso, então, é a criação de dinheiro — o que Lorde Littlefinger realiza através da prática (historicamente costumeira) de adulterar a moeda. [5]
As frequentes guerras entre as famílias governantes de Westeros — embora estas não sejam tão militaristas quanto os Homens de Ferro — destroem periodicamente a riqueza acumulada da “classe baixa” (small folk), como os nobres a chamam. Devido ao conflito constante, muitas populações nos Sete Reinos lutam para sobreviver um dia após o outro. A poupança, por exemplo, é quase impossível para o “povo comum” (common folk); e até mesmo os cavaleiros e os nobres têm dificuldade de praticá-la.
Não é surpreendente, então, que a economia, de modo geral, não evolua além dos estágios iniciais de acumulação de capital e demonstre estar estacionada no mesmo nível de desenvolvimento por milhares de anos. [6] As indústrias que prosperam e desencadeiam a maior parte do desenvolvimento tecnológico são as indústrias da guerra, em detrimento dos empreendimentos pacíficos e produtivos. Os armeiros e os construtores de barcos, por exemplo, são claramente descritos como aproveitadores que se beneficiam do tumulto político. 
Dada a centralização do poder nos Sete Reinos — e dada a complexa rede de intrigas e privilégios [7] que vem junto com ela —, não é surpresa que sejam comuns os estrondosos exemplos de desperdícios estatais.
O torneio de Robert Baratheon requer um total de “noventa mil peças de ouro” somente em prêmios. Adicionalmente, em função de Robert desejar uma “festa prodigiosa”, o Mestre da Moeda contrata, entre outros, “cozinheiros, carpinteiros, garçonetes, cantores, malabaristas e palhaços”. O Conselho é rápido em argumentar — lançando mão da falácia da janela quebrada — que “o reino prospera” através de tais eventos e que as pródigas despesas em torneios também trazem “aos grandes uma oportunidade de glória e aos humildes uma trégua dos seus problemas e das suas aflições”. O mesmo raciocínio é usado para justificar outras ultrajantes e escandalosas gastanças, como o extravagante casamento do Rei Joffrey.
As economias mais desenvolvidas de As Crônicas de Gelo e Fogo encontram-se nas assim denominadas Cidades Livres. As nove cidades-estado do outro lado do Mar Estreito ostentam “um número de templos, torres e palácios” duas vezes maior do que aquele encontrado em Westeros e são bem conhecidas pelo seu comércio de tapeçarias, carpetes, rendas, vinhos e especiarias.
Cosmopolitas e poliglotas, as Cidades Livres possuem também muitos estabelecimentos lucrativos de empréstimo de dinheiro: “Cada uma das Nove Cidades Livres tem o seu banco, e algumas têm mais de um, lutando por todas as moedas como cachorros por um osso.” Os bancos proveem ajuda financeira para os estrangeiros, especialmente para as famílias de nobres dos Sete Reinos, e a reputação deles faz com que sejam peças-chave na guerra dos tronos: “Quando os príncipes falham em quitar as suas dívidas com o Banco de Ferro, novos príncipes brotam do nada e tomam os seus tronos.”
As Cidades Livres não são estranhas à luta política, obtendo a grande custo a relativa liberdade que possuem. Braavos, agora a mais nova e mais poderosa cidade, foi fundada por escravos refugiados, os quais desde então se esforçam para eliminar a escravidão na região das Cidades Livres.
Outros indivíduos também aprenderam severas e desagradáveis lições econômicas. Volantis era a mais antiga e a maior das Cidades Livres, mas perdeu a sua riqueza numa vã tentativa de conquistar as outras. Os governantes volantinos “favoreciam a espada, ao passo que os mercadores e os banqueiros defendiam o comércio. (...) Após um século de guerra, Volantis encontrava-se quebrada, falida e despovoada.” Somente após o abandono das aspirações militares, somente após a renovação da atividade comercial pacífica, é que a cidade retornou à prosperidade.
Para concluir, é importante assinalar que a obra As Crônicas de Gelo e Fogo se baseia extensamente na história medieval, a qual vivenciou mais do que a sua quota de guerras e destruição econômica. História ou fantasia, a guerra dos tronos — o uso do meio político — impede a propagação e a difusão de ideias econômicas saudáveis, sendo afastadas, assim, as boas políticas econômicas. Graças aos Sete Reinos e ao seu vício pela guerra dos tronos, quando ocorrem a paz e a prosperidade em Westeros, a única coisa da qual podemos estar certos é: O Inverno Está Chegando.
 
Referências Bibliográficas
 
MARTIN, George Raymond Richard. A Song of Ice and Fire: A Game of Thrones. New York: Bantam Books, 1996.
MARTIN, George Raymond Richard. A Song of Ice and Fire: A Clash of Kings. New York: Bantam Books, 1999.
MARTIN, George Raymond Richard. A Song of Ice and Fire: A Storm of Swords. New York: Bantam Books, 2000.
MARTIN, George Raymond Richard. A Song of Ice and Fire: A Feast for Crows. New York: Bantam Books, 2005.
MARTIN, George Raymond Richard. A Song of Ice and Fire: A Dance with Dragons. New York: Bantam Books, 2011.
OPPENHEIMER, Franz. The State: Its History and Development Viewed Sociologically. New York: Vanguard Press, 1926.
VON MISES, Ludwig. The Causes of the Economic Crisis. Auburn, Alabama: Ludwig von Mises Institute, 2006.
 
 

 

 
Matthew McCaffrey é professor de economia na Auburn University e editor de Libertarian Papers.
Carmen Elena Dorobăț é pós-doutoranda em economia na Universidade de Angers e professora de economia na Bucharest Academy of Economic Studies.
 
 

 







[1] Por exemplo, Balon Greyjoy proclamou-se “Lorde Ceifador”.


[2] Tal sentimento é similar àquele encontrado na história de Santo Agostinho acerca do diálogo entre Alexandre, o Grande, e um pirata:

 

Removida a justiça, o que são os reinos senão grandes assaltos, e os roubos, senão pequenos reinos? O bando, em si, é formado por homens; é governado pela autoridade de um príncipe; é unido pelo pacto de uma confederação; o butim é dividido pela lei pactuada. Se, pela admissão de homens abandonados, esse mal aumenta a tal grau que domina lugares, fixa estabelecimentos, toma posse de cidades e subjuga povos, ele assume mais claramente o nome de reino, porque esta é a realidade que lhe é manifestamente conferida não pela remoção da cobiça, mas sim pela adição da impunidade. Com efeito, foi uma resposta adequada — bem como essencialmente verdadeira aquela que um pirata capturado deu a Alexandre, o Grande. Quando esse rei lhe perguntou o que queria dizer com “manter a posse hostil do mar”, o pirata respondeu com orgulhosa insolência: “O mesmo que tu queres dizer quando falas da conquista da Terra inteira; mas, porque eu o faço com um pequeno e insignificante navio, eu sou chamado de ladrão, ao passo que tu, que o fazes com uma grande frota, és chamado de imperador.”

 


[3] De acordo com as premissas da Escola Austríaca, é justamente a impossibilidade do cálculo econômico no socialismo (i.e., a propriedade estatal/pública/comunal dos meios de produção) o que torna esse sistema inviável e impraticável, ainda que as intenções sejam ou aparentem ser de caráter nobre. Com a inexistência da propriedade privada dos meios de produção, estes não podem ser objeto de trocas (compra e venda; comércio). Portanto, não há como ocorrer o surgimento de preços de mercado (os quais revelam a escassez relativa dos fatores de produção e os seus usos alternativos, i.e., os seus custos); os preços não podem ser sinteticamente elaborados por planejadores centrais através de fórmulas matemáticas que os simulem: as informações estão dispersas na sociedade e não são estáticas (i.e., não se encontram em “estado de equilíbrio”), mas sim dinâmicas; assim, sem a existência de preços é impossível a realização do cálculo econômico sem o qual a organização econômica racional não se concretiza, não se viabiliza. (N. do T.)


[4] A linguagem usada para descrever os povos do extremo norte revela sentimentos políticos mais profundos. Aqueles do sul referem-se aos do norte como “selvagens vulgares” (wildlings) e consideram bárbaro o seu modo não submisso de vida. Por outro lado, aqueles do norte chamam a si mesmos de “povo livre” (free folk) e ridicularizam os povos que se encontram ao sul do Muro — os quais são todos uma parte de um estado ou de outro — rotulando-os de “os que se ajoelham” (kneelers).


[5] Na trama, a adulteração da moeda se dá através de um método chamado de coin-clipping (“clipagem”), através do qual corta-se uma pequena parte do metal precioso da moeda. (N. do T.)


[6] Conforme os ensinamentos da Escola Austríaca, o ciclo de crescimento econômico, de forma bem resumida, acontece assim: (1) poupança (abstenção do consumo presente com vistas à obtenção de um benefício superior no futuro); (2) investimento (uso da poupança direcionado a um fim produtivo); (3) acumulação de capital (criação de mais bens de capital — ou de produção —, o que aumenta a capacidade produtiva e, portanto, a oferta de bens de consumo). (N. do T.)


[7] No texto original, os autores se referem a: rent-seeking (1) e power-brokering (2).

(1) Trata-se da busca de riqueza por meio da manipulação do meio político. Um exemplo clássico disso é o conluio que empresários realizam com agentes estatais (políticos e burocratas) com a finalidade de obterem privilégios por exemplo, a promulgação de um ordenamento legal que proíba a existência ou o surgimento da concorrência.

(2) Power-broker significa aquele indivíduo que, em troca de benefícios (favores) políticos e/ou financeiros, influencia (muitas) outras pessoas, induzindo-as a favorecerem, através do voto ou de outro meio, o seu cliente. Power-brokering é a atividade dessa pessoa. (N. do T.)


 

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