“Government is essentially the negation of liberty.” — Ludwig von Mises (“O governo é essencialmente a negação da liberdade.”) “The institution of the state establishes a socially legitimized and sanctified channel for bad people to do bad things.” — Murray N. Rothbard (“A instituição do estado estabelece um canal legitimado e ungido para pessoas más fazerem coisas ruins.”) “[The state is] an institution run by gangs of murderers, plunderers, and thieves, surrounded by willing executioners, propagandists, sycophants, crooks, liars, clowns, charlatans, dupes, and useful idiots — an institution that dirties and taints everything it touches.” — Hans-Hermann Hoppe (“[O estado é] uma instituição conduzida por gangues de assassinos, saqueadores e ladrões, tendo à sua volta dispostos executores, propagandistas, patifes, vigaristas, mentirosos, palhaços, charlatões, imbecis e idiotas úteis — uma instituição que suja e macula tudo que toca.”) “Socialismo es todo sistema de agresión institucional contra el libre ejercicio de la acción humana o función empresarial.” — Jesús Huerta de Soto

terça-feira, 15 de novembro de 2022

O Governo Onipotente (Marco Batalha)




(Clique aqui para baixar o texto no formato PDF.)


O enfraquecimento do dinheiro torna o poder estatal praticamente ilimitado.


No seu livro Da Aurora à Decadência, o historiador Jacques Barzun identifica a Primeira Guerra Mundial como o ponto crucial para o início da decadência ocidental. Antes, as pessoas podiam viver as suas vidas livremente, colhendo os frutos ou sofrendo as consequências das suas ações. Depois, as pessoas passaram a ver o estado como um ente que satisfaria os seus desejos e as protegeria de más consequências. Social, econômica e politicamente, o papel do estado foi redefinido como o de um gênio da lâmpada. Bastava as pessoas votarem para terem todos os seus desejos atendidos. Um outro historiador, Élie Halévy, também diz que a era das tiranias se iniciou em 1914, com a Primeira Guerra, quando houve uma nacionalização econômica e uma reorganização da sociedade para um modelo coletivista.

Até então, a solidez do dinheiro restringia o tamanho do estado, já que este precisava tributar diretamente as pessoas para se financiar. Depois, com a adoção de um dinheiro fraco, o estado podia comprar alianças e popularidade sem ter de mostrar a conta para a população. Bastava inflacionar a moeda para financiar qualquer esquema que lhe fosse conveniente. Os efeitos só seriam sentidos depois, quando houvesse um aumento generalizado nos preços. Quando isso acontecia, os políticos podiam colocar a culpa em outros entes, como banqueiros, empresários, estrangeiros ou facções políticas rivais. Aliás, o dinheiro fraco é particularmente deletério em uma democracia, na qual os políticos encaram pressões para se reelegerem. Os eleitores tendem a preferir justamente os que prometem almoços grátis impossíveis.

O dinheiro fraco está na raiz das ilusões modernas dos eleitores e dos coitados que tiveram a infelicidade de estudar economia em universidades. Eles acreditam que as ações estatais não têm custos de oportunidade e que o Leviatã pode usar uma varinha-de-condão para moldar a realidade a seu bel-prazer. Seja a redução da pobreza, a oferta de educação “pública, gratuita e de qualidade”, um sistema universal de saúde ou coisas afins , eles acreditam que a lei da oferta e procura pode ser ignorada. Eles vivem em uma terra de sonhos, em que essas demandas não têm custos reais. Eles creem que tudo que seja necessário para atingir esses objetivos é “vontade política” ou “escolher o líder certo” ou “acabar com a corrupção”. Eles ficariam chocados caso descobrissem que políticos não podem conjurar isso do nada.

Agora, imagine se descobrissem que tudo isso precisa ser proporcionado por pessoas reais que têm de acordar cedo para produzir os almoços supostamente grátis. Ainda que nenhum político tenha sido eleito por reconhecer essa realidade, a urna de votação não pode eliminar a escassez dos recursos. Quando o estado oferece algo, não está melhorando a economia está apenas a planejando centralmente, com as terríveis consequências que conhecemos tão bem. O dinheiro fraco foi uma bênção para os déspotas, pois lhes permitiu camuflar os custos do aumento da base monetária. Eles passaram a se financiar via inflação, deixando a conta para a população, que via o seu poder de compra evaporar e não associava isso à expansão monetária. E é isso que experimentamos neste mundo fiduciário em que vivemos.

Não é por acaso que, olhando para os eventos mais tirânicos da história, encontramos o fato de todos ocorrerem sob um sistema monetário controlado pelo estado com mãos-de-ferro e constantemente inflacionado para financiar as operações governamentais. Há uma boa razão pela qual tiranos do porte de Stalin tenham governado em períodos de dinheiro fraco, que era impresso à vontade para viabilizar os seus mandos e desmandos. É a mesmíssima razão pela qual as sociedades que os pariram não promoveram ninguém do mesmo nível quando estavam sob um sistema monetário forte. Note que nenhum desses déspotas enfraqueceu o dinheiro depois de ter assumido o poder. O dinheiro teve de ser enfraquecido antes para que eles pudessem assumi-lo. Com o dinheiro fraco, ficou muito fácil a tomada do poder.

Esse enfraquecimento do dinheiro sempre acontece com promessas de almoços grátis: de  educação, saúde, segurança e todos os tipos de “direitos” possíveis e imagináveis. Um canto de sereia... O dinheiro fraco torna o poder do Leviatã praticamente ilimitado, com consequências terríveis para os indivíduos. A política torna-se o centro das suas vidas, drenando boa parte dos recursos e da energia da sociedade para um jogo de soma-zero, em que os vassalos precisam perder para que os suseranos ganhem. Já um dinheiro sólido por si só limita o poder estatal, permitindo à grande maioria dos indivíduos um alto grau de liberdade nas suas vidas pessoais, qualquer que seja o regime sob o qual vivam. Se o dinheiro é fraco, temos o exato oposto. Com o crescimento do poder estatal, mais e mais liberdades individuais são tolhidas.

Neste momento, vale a pena retornarmos às ideias de John Maynard Keynes para entender as motivações do sistema econômico que ele propõe o sistema sob o qual temos vivido nas últimas décadas. Em um artigo intitulado “O Fim Do Laissez-Faire”, ele descreve como deveria ser o papel do estado. Keynes defende que o estado não deve se preocupar com “coisas triviais como liberdades individuais”, mas sim com o completo controle socioeconômico. Para isso, o estado deve: (1) controlar a moeda e o crédito por meio de uma instituição central; (2) decidir o nível de poupança da sociedade; e (3) determinar o tamanho populacional ideal. Escreve ele:

 

Uma política nacional sobre o tamanho populacional, se maior ou menor que o atual, é de suma importância. Tendo a definido, podemos discutir como colocá-la em prática.

 

Em outras palavras, a concepção keynesiana de estado, da qual vem a doutrina moderna de bancos centrais e que molda a grande maioria dos livros acadêmicos econômicos, origina-se de uma pessoa que queria o estado controlando dois aspectos fundamentais das nossas vidas: primeiro, das decisões econômicas envolvendo dinheiro, crédito, poupança e investimentos, o que implica centralização totalitária da alocação de capital, destruição dos empreendimentos individuais e dependência do governo para a subsistência; e, segundo, controle da qualidade e da quantidade populacional. Só a ponerologia mesmo para explicar isso. Em um sistema assim, o dinheiro deixa de funcionar como um sistema de informação para otimizar a produção e passa a ser um programa de fidelidade ao estado. É nesse sistema que hoje vivemos.


[Este texto baseia-se em um trecho do sétimo capítulo do livro “The Bitcoin Standard”, de Saifedean Ammous.]

 

sábado, 1 de outubro de 2022

A Abordagem de Tom Brady para Viver uma Vida de Maestria (Barry Brownstein)


Clique aqui para baixar o texto (formato PDF). Tradução minha.

(Publicado em: 23.04.2017)

 

No seu livro clássico sobre treino e prática, Mastery: The Keys to Success and Long-Term Fulfillment [“Maestria: As Chaves para o Sucesso e a Realização a Longo Prazo”], George Leonard observa que muitos de nós se condicionaram a achar que a vida seja uma “série interminável de momentos de clímax”.

 

A vida não é só títulos de Super Bowl

 

Escrevendo no início dos anos 1990, Leonard fez esta observação sobre comerciais de televisão: “A corrida é disputada e vencida; jovens bonitos movimentam-se em êxtase para cima e para baixo enquanto pegam latas geladas de Coca-Cola diet. Pessoas são mostradas trabalhando nos seus escritórios por somente um segundo e meio, depois já é hora de celebrar e confraternizar.”

A mensagem desses comerciais se resume a soluções rápidas para os problemas da vida. “Uma epifania segue outra. Uma fantasia é ultrapassada pela próxima. Um clímax empilha-se noutro clímax. Não há platô”, constata Leonard.

Se você olha para a vida de Tom Brady através de uma lente superficial, ela parece ser uma sequência de momentos de clímax, um após o outro. Na exígua lista dos melhores quarterbacks de todos os tempos, Brady tem cinco títulos de Super Bowl e quatro prêmios de MVP de Super Bowl (“most valuable player” “jogador mais valioso” ou, simplesmente, “destaque da final”), além de uma família amorosa. [Atualmente, em 2022, ele ostenta sete títulos de Super Bowl e cinco prêmios de MVP de Super Bowl.]

Se você acredita que o segredo do sucesso de Brady é o seu talento ilimitado, você pode estar perdendo o ponto principal da história de Tom Brady.

Quando Brady, em 1996, matriculou-se na Universidade de Michigan, ele era apenas o sétimo na fileira de quarterbacks da instituição. O tempo de jogo era tão escasso que Brady contratou um psicólogo esportivo para ajudá-lo a superar a sua frustração, a sua ansiedade.

Saindo da faculdade, ele foi selecionado somente na sexta rodada do draft da NFL de 2000. Poucos esperavam que Brady se tornasse um excelente quarterback profissional. Ele começou a sua carreira no New England Patriots apenas como o quarto na fileira dos quarterbacks.

 

Que dor você quer aguentar?

 

Ao contrário de Brady, alguns de nós lamentam as nossas vidas. Para qualquer um que escute, recitamos as nossas histórias de como e por que as coisas não deram certo para nós.

Estamos muito focados num objetivo, mas não o suficiente no esforço necessário para alcançar esse objetivo?

The Most Important Question of Your Life[“A Questão Mais Importante da Sua Vida”] é um ensaio de Mark Manson. Nele, o autor compartilha o seu falso sonho de se tornar uma estrela do rock, confessando:

Eu estava apaixonado pelo resultado uma imagem de mim no palco; pessoas vibrando e aplaudindo; eu agitando; eu derramando o meu coração naquilo que está sendo tocado , mas não estava apaixonado pelo processo. E, por causa disso, falhei. Repetidamente. Inferno, eu nem mesmo me esforcei o suficiente para falhar. Na prática, nem mesmo tentei.

O sonho de Manson era “falso” porque ele não estava pronto para pagar o preço do sucesso. “O que determina o seu sucesso não é: ‘O que você deseja desfrutar?’. A questão é: ‘Que dor você quer aguentar?’ (...) [Se] você deseja os benefícios de algo na vida, também deve querer os custos”, escreve Manson.

 

Amando o platô

 

Aos 39 anos [agora, em 2022, Brady está com 45 anos], muito depois da idade em que a maioria dos jogadores de futebol americano costuma se aposentar, Tom Brady ainda está disposto a pagar o preço de alcançar a maestria. A dieta rigorosamente orgânica de Brady consiste em vegetais, grãos integrais e proteínas magras. Nada de café. Nada de laticínios. Para evitar inflamações no seu corpo, Brady fica longe de alimentos da família das solanáceas, como tomates e batatas.

Dedicado à sua família, Brady não se sente atraído pela cena social. Ele encontra-se na cama por volta das nove horas da noite e não toma bebida alcoólica. No treinamento, evita o levantamento de pesos pesados em prol de exercícios de flexibilidade. Isso, acredita Brady, reduz as suas chances de lesões nos jogos.

Fergus Connolly, diretor de desempenho de futebol americano da Universidade de Michigan, está certo de que, “ao nível de Brady, a maneira como você cuida dos seus genes importa mais que a sua composição genética”.

No campo e fora dele, Brady parece ser inabalável. Ele dá crédito a uma filosofia que impede permitir que as ações dos outros o perturbem. Será que essa filosofia aumenta o seu desempenho nos dias de jogo tanto quanto a longevidade da sua carreira no futebol americano? 

Mesmo depois de ganhar o Super Bowl, nas palavras de Leonard, “sempre há amanhã, amanhã e amanhã”. A visão de Leonard é a seguinte: “Se a nossa vida é uma vida boa, uma vida de maestria, a maior parte dela será despendida no platô.”

Leonard se pergunta: Muitas pessoas podem aprender a valorizar o platô? “Caso contrário”, escreve ele, “uma grande parte [das nossas vidas] pode muito bem ser despendida em tentativas inquietas, distraídas em última análise, autodestrutivas para escapar do platô.”

Michelângelo famosamente disse: “Se as pessoas soubessem o quanto eu trabalhei para obter a minha maestria, ela sequer pareceria tão maravilhosa.”

Estamos nos esforçando para alcançar a maestria nas nossas carreiras ou estamos apenas esperando um clímax chegar? Estamos confiando demais nas nossas boas intenções e negligenciando o trabalho duro mundano que possibilita uma vida gratificante?


domingo, 18 de setembro de 2022

Trecho do livro “O Tigre de Sharpe”, de Bernard Cornwell

(Clique na imagem para melhor visualização)


“Sem comércio não há riqueza, e sem riqueza não há sociedade na qual valha a pena viver. Sem comércio, recruta Sharpe, seríamos apenas feras na lama. Vale a pena lutar pelo comércio, embora o bom Deus saiba que não apreciamos muito essa atividade. Nós celebramos reis, honramos grandes homens, admiramos aristocratas, aplaudimos atores, derramamos ouro em pintores. Às vezes até recompensamos soldados e prisioneiros. Mas sempre desprezamos os mercadores. Por quê? É a riqueza do mercador que move os moinhos, Sharpe. Essa riqueza tece roupas, bate martelos, sopra velas de navios, abre estradas, forja ferro, cultiva trigo, assa pão e constrói igrejas, chalés e palácios. Sem comércio e sem Deus nada seríamos.”

— Coronel McCandless, personagem do livro O Tigre de Sharpe, de Bernard Cornwell


sábado, 17 de setembro de 2022

Escravidão Privada vs. Escravidão Pública (Hans-Hermann Hoppe)








A diferença fundamental entre a propriedade privada governamental (de baixa preferência temporal) e a propriedade pública governamental (de alta preferência temporal) pode ser ilustrada pela instituição da escravidão, contrastando os escravos de propriedade privada — conforme existiam, por exemplo, na América antes da guerra — com os escravos de propriedade pública — conforme existiam, por exemplo, na antiga União Soviética e no seu império no Leste Europeu.

Assim como os escravos, na condição de propriedade privada, eram ameaçados com punições caso tentassem fugir, em todo o antigo Império Soviético a emigração foi banida e punida como uma ofensa criminal — caso necessário, aqueles que tentavam fugir eram fuzilados. Além disso, normas antivadiagem existiam em todo lugar, e os governos podiam atribuir qualquer tarefa — bem como todas as recompensas e todas as punições — a qualquer cidadão. Daí a classificação do sistema soviético como escravatura. Entretanto, ao contrário de um proprietário privado de escravos, os donos de escravos da Europa Oriental — de Lênin a Gorbachev — não podiam vender ou alugar os seus súditos em um mercado de trabalho e privadamente apropriar as receitas decorrentes da venda ou do aluguel do seu “capital humano”. Daí a classificação do sistema como escravidão pública (ou socialista).

Sem mercados de escravos e de mão-de-obra escrava, as coisas são ainda piores — e não melhores — para os escravos; inexistindo preços para os escravos e para a sua mão-de-obra, um proprietário de escravos não pode mais alocar racionalmente o seu “capital humano”. Ele não é capaz de determinar o valor e a escassez das suas várias e heterogêneas peças de capital humano; e não pode determinar o custo de oportunidade do uso desse capital em qualquer emprego e muito menos compará-lo com a receita correspondente. Portanto, má alocação, desperdício e “consumo” de capital humano duradouros são os resultados. 

A evidência empírica indica tudo isso. Conquanto ocasionalmente acontecesse o fato de um proprietário privado de escravos matar um escravo seu — o que significa o máximo “consumo” de capital humano —, a escravidão socialista na Europa Oriental resultou no assassinato de milhões de civis. Sob a escravidão de propriedade privada, a saúde e a expectativa de vida dos escravos aumentaram em geral. No Império Soviético, os padrões de saúde deterioraram-se constantemente, e a expectativa de vida realmente caiu nas últimas décadas. O nível de treinamento prático e de educação dos escravos privados aumentou em geral. O dos escravos socialistas diminuiu. A taxa de reprodução entre os escravos de propriedade privada era positiva. Entre as populações de escravos da Europa Oriental, ela era normalmente negativa. Eram altas as taxas de suicídio, de autoincapacitação, de rompimentos familiares, de promiscuidade, de filhos “ilegítimos”, de defeitos congênitos, de doenças venéreas, de aborto, de alcoolismo e de comportamento bruto ou estúpido entre os escravos privados. Mas todas essas taxas de “consumo de capital humano” eram ainda maiores entre os escravos socialistas do antigo Império Soviético. Similarmente, ao passo em que ocorriam comportamentos moralmente absurdos e violentos entre os escravos de propriedade privada após a sua emancipação, o embrutecimento da vida social após a abolição da escravatura socialista foi muito pior, revelando um grau até mesmo superior de degradação moral.

— Hans-Hermann Hoppe, no seu livro Democracia, o Deus que Falhou (capítulo 1)

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A Arma de Fogo É a Civilização (Marko Kloos)





Clique aqui para baixar o texto (formato PDF).

Uma Teoria Simples sobre a Corrupção (Hans Sennholz)

“Não quero silenciar um exemplo moderno: o de Alexandre VI, que na sua vida só fez enganar as pessoas. Nunca pensou em outra coisa; e sempre encontrou oportunidade para isso. Ninguém jamais afirmou com tanta convicção — e prometendo com tanto vigor cumpriu tão pouco o prometido. Ele, porém, sempre se beneficiou com a mentira, pois conhecia muito bem essa arte.”

— Maquiavel, O Príncipe, cap. 18 

“As pessoas são tão pouco argutas, inclinando-se de tal modo às necessidades imediatas, que quem quiser enganá-las encontrará sempre quem se deixe enganar.”

— Maquiavel, O Príncipe, cap. 18

“Além disso, em função do fato de a Constituição explicitamente conceder a ‘livre entrada’ no aparato estatal — qualquer pessoa pode se tornar um membro do Congresso, um juiz do Tribunal Supremo ou o presidente —, foi diminuída a resistência contra as invasões de propriedade pelo estado; como resultado da “livre competição política”, toda a estrutura moral da sociedade foi distorcida, e mais e mais indivíduos maus ascenderam ao topo. Pois liberdade de entrada e livre competição nem sempre são coisas boas. Liberdade de entrada e livre concorrência na produção de bens é algo positivo; mas livre concorrência na produção de males é algo negativo. Por exemplo, liberdade de entrada no ramo de assassinatos, de roubos, de falsificações e mentiras não é algo bom; é algo pior que péssimo. Entretanto, é exatamente isso que fica instituído pela livre competição política, i.e., pela democracia.

(...)

Pior ainda: (...) os politicamente talentosos, que têm pouca ou nenhuma inibição contra tomar a propriedade alheia e mandar nos outros, possuem uma vantagem clara sobre aqueles que têm tais escrúpulos. Ou seja, a livre competição política favorece os talentos políticos agressivos (portanto, perigosos) em vez dos defensivos (portanto, inofensivos), conduzindo, assim, ao cultivo e à perfeição das peculiares habilidades da demagogia, da fraude, da mentira, do oportunismo, da corrupção e do suborno. Em consequência, a entrada e o sucesso no governo se tornarão cada vez mais impossíveis para qualquer pessoa que tenha inibições morais contra os atos de mentir e roubar. Então, ao contrário dos monarcas hereditários, os congressistas, os presidentes e os juízes do Tribunal Supremo não adquirem — aliás, nem podem adquirir — as suas posições acidentalmente (por acaso).”

Hans-Hermann Hoppe, Democracia o Deus que Falhou, capítulo 13

Clique aqui para baixar o texto (formato PDF).

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Desigualdade Social, a Solução Final (Roberto Rachewsky)

(Clique na imagem para melhor visualização.)

Texto publicado em 08.08.2022 no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, RS

Ninguém tratou a desigualdade social melhor que Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, grupo revolucionário comunista que governou o Camboja de 1975 a 1979. De família rica, Pol Pot estudou em Paris, onde conheceu as ideias de Rousseau, Marx, Stalin e Mao. Com Kropotkin, anarquista russo, aprendeu sobre o igualitarismo, doutrina na qual Pol Pot se especializou, levando-a às últimas consequências. Para impedir que os indivíduos mais qualificados, criativos, produtivos, ambiciosos se sobressaíssem na sociedade cambojana, não hesitou em usar a violência extrema. 

A natureza racional do homem demanda que os indivíduos sejam livres para agirem de acordo com o seu próprio julgamento para desenvolverem habilidades, adquirirem conhecimento e bens, interagirem com os demais para a maximização de potencialidades e oportunidades individuais no contexto social, buscando satisfazerem o seu autointeresse. 

Pol Pot sabia que homens livres não são iguais. Por isso, evacuou cidades, transferindo os seus habitantes para áreas rurais para trabalharem com monocultura agrícola como escravos do seu governo. Os cambojanos foram destituídos dos seus bens; famílias foram dissolvidas; e cientistas, professores, clérigos, adultos pertencentes à classe média foram considerados corruptos e mortos. Pessoas com problemas de visão tiveram os seus óculos confiscados para que ninguém enxergasse melhor que os outros. Quem demonstrasse possuir conhecimento superior era sumariamente exterminado.

Os comunistas tinham ciência de que para acabar com a desigualdade social, natural à espécie humana, era preciso transformar cada indivíduo num animal irracional, incapaz de adquirir e usar conhecimento, de criar e produzir riqueza. No Camboja, a igualdade social foi conquistada na forma de cadáveres empilhados aos milhões em montanhas de ossos.

Seres humanos não são iguais. Onde liberdade e propriedade existem, como no capitalismo, os resultados produzidos pelos indivíduos sempre serão desiguais. O capitalismo não acaba com a desigualdade social porque não é um sistema desumano. O que acaba no capitalismo é a miséria, este, sim, problema real da humanidade, mas que vem sendo reduzido desde a Revolução Industrial.

Quando vierem lhe falar de desigualdade social, pergunte: “Já ouviste falar em Pol Pot?”. Se a resposta for não, recomende Gritos do Silêncio, título em português do filme The Killing Fields, os campos da morte, em tradução literal.


***

Comentário na seção dos leitores de João Carlos Stona Heberle, um médico de Cruz Alta (RS),  no dia seguinte à publicação do texto acima no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS):

 

O texto “Desigualdade social, a solução final”, de Roberto Rachewsky (ZH, 8/8), cita Pol Pot (um déspota) como “exemplo” de comunismo e diz que o que acaba no capitalismo é a miséria! Em que país vive Roberto? Pois no nosso Brasil capitalista, 33 milhões de pessoas estão passando fome. Programas como Fome Zero, Minha Casa Minha Vida e o Prouni, da dita “esquerda”, esses sim, diminuem a desigualdade social.

 

O livre mercado — o capitalismo — envolve propriedade privada, trocas voluntárias, oferta e demanda, sistema de preços, empreendedores servindo consumidores/usuários; irrestrita liberdade de entrada no processo de mercado; processo de poupança, investimento e acumulação de capital. Nada tem a ver com socialismo (propriedade estatal de tudo e de todos) e intervencionismo (economia de compadrio).

O estado é apenas um aparato de coerção, de violência, de agressão. Ele não produz riqueza. Ele somente a confisca e a redistribui, ficando para si — i.e., para os políticos e os burocratas que o comandam — a maior parte desse esbulho. Tais “programas sociais” somente servem para polir a imagem do Bandido Estacionário e obter apoio político-eleitoral.

O estado brasileiro simplesmente não permite o capitalismo genuíno no país. Não existe verdadeiro livre mercado por aqui; o intervencionismo estatal domina tudo. Se houvesse genuíno capitalismo por aqui, o nível de miséria seria muitíssimo menor.

O socialismo significa que todos os meios de produção estão sob o controle do estado. Na prática, o estado torna-se dono de tudo e de todos. A força de trabalho dos indivíduos é também um meio de produção; o socialismo, então, significa que a força de trabalho das pessoas pertence ao estado, não a elas. Na realidade, as próprias pessoas pertencem ao estado.

O médico chamou Pol Pot de “um déspota”, dando a entender que o socialismo do Khmer Vermelho foi apenas “despotismo”, “ditadura”, “opressão”, deixando, portanto, de configurar o “verdadeiro socialismo” — então todas as atrocidades do socialismo nas diversas regiões do planeta aconteceram apenas porque o socialismo foi aplicado de maneira errada. O socialismo, porém, dá o poder absoluto a um grupelho de políticos e burocratas. E o poder absoluto resulta em atrocidades absolutas. (O socialismo, ademais, prega o extermínio de quem seja inimigo do proletariado e da revolução — “burgueses”, por exemplo.)

Esse número de pessoas que o médico diz que estão passando fome — trinta e três milhões — é apenas propaganda esquerdista.

Finalizo: A “igualdade plena” só é possível por meio de ilimitada violência para rebaixar os seres humanos a um denominador comum: escravos animalescos.